quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sociedade Hipocondríaca

Medo de pisar no chão.
Medo de cortar a mão.
Medo de levar um choque.
Medo de quebrar o pescoço.
Medo de morrer afogado.
Medo de se declarar.
Medo do que os outros pensam.
Medo de amar.
Medo de não ser amado.
Medo de não ser o bastante.
Medo de uma tristeza constante.
Medo quem sabe, do próprio medo?
Medo de aprender.
Medo de conviver.
Tanto tanto medo
Corre corre corre
O medo não te deixa viver.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

As várias faces de um cordeiro, IX

A manhã chegara. Não titubeei em me levantar tão rápido quanto pude. As crianças compartilharam uma metade de pão comigo, comi logo que pude. Levantei-me e parti para aquela mata onde haviamos nos encontrado aquela vez, na esperança de que lá estivesse.
O caminho da ponte onde eu estava morando com aquelas crianças até a mata era longo. Quando percorria por ele, sempre observava com olhos curiosos todas aqueles clarões e alegorias que a cidade expunha. E reparando com mais atenção, percebi que tudo estava muito mais agitado do que deveria, mas não me importei muito e segui.
Quando cheguei no subúrbio que era o último lugar a passar antes de chegar na floresta, a agitação tornou-se mais intensa. Pessoas correndo e fugindo de homens com seus quepes pretos, disparando com suas engenhocas de desfazer a vida, na direção daqueles que corriam. Tentei me abrigar. Foi quando eu o vi.
Aquele homem que me assustara tanto naquela prisão reaparecia. Com seu quepe que aquela vez estava na sua mão. A minha cabeça não tomou outra decisão senão correr. Foi quando abrindo um sorriso ele disparou contra mim. Parecia que daquela vez seu dedo estava atrofiado pelo pavor da explosão, e que ele só sentiu-se aliviado assim.
O ombro esquerdo fisga. Eu sinto um pedaço de metal quente dentro de mim, e o meu sangue tão quente quanto, pulsa para fora. Tudo estava fechado, as pessoas tinham medo de todo aquele Caos que reinava lá fora. Mas um armazém todo acabado que parecia ser o começo daquilo tudo estava aberto ainda. Decidi me esconder por lá.

Eu fitei o sangue pulsar do meu corpo. E as lágrimas escorreram, e não era por dor. Era por ódio. Um ódio tão denso, quente e vermelho quanto o meu sangue. E quanto mais o sangue escorria, mais o meu ódio latejava. Escutei passos adentrando o armazém, duros, com seu toc toc querendo se abafar, como se a paciência do andar fosse disfarçar. Encontrei então, uma barra de ferro e me escondi.

"Apareça, marginalzinho! Não existem heróis para te salvarem agora! Você sabe que não adianta se esconder, você sempre foi impotente!"

Permaneci quieto. Esperei como uma cobra espera sua presa, e quando ele surgiu na minha vista eu não vi mais nada.

Eu só enxerguei depois, o corpo dele com a cabeça em pedaços e sangue, muito sangue.

E depois disso, por mais que o medo existisse ele se tornou irrelevante.

domingo, 9 de agosto de 2009

Uma conversa entre amigos, VIII

Eu tentava dormir e a cabeça não cessava. Sophie era mais forte do que o meu sono. Eu não conseguia decifrar aquela sensação pérpetua que queria me manter ao lado dela. Era incrível como os traços do seu rosto eram viciantes de se recordar. Foi então que me levantei, andei um pouco e parei diante uma poça d'água. Eu via meu reflexo tremular entre suas ondas, e me sentia inseguro. Pois a queria para mim, e sabia que queria o que não poderia ter. Percebi então que definitivamente não dormiria essa noite.
E a minha cabeça ficou tão confusa quanto as ruas daquela cidade. Tanta coisa passava por ela ao mesmo tempo, esbarrando, mudando a trajetória do pensamento, perdendo o rumo da razão. E nesse bate bate empurra empurra, me lembrei daquele dia. A primeira coisa que me recordei foi a cegueira, a segunda foi aquele sufocante cheiro de fumaça. E a terceira, simplesmente apareceu do meu lado.
Entrei em choque. Estava ali, aquele homem, com uma cigarrete de tabaco mascado, sorridente, sujo de pó. Ele aproximou-se mais, deu um daqueles tapas nas costas de velho amigo, e sentou-se do meu lado. Então ele me indagou - E então menino, o que achou da vida real? - e respondendo com toda indignação - Eu achei confusa e ilógica. As pessoas são orgulhosas e esdrúxulas com seus olhares sentenciadores e tendenciosos. Tem tanto pudor quanto são vulgares, e ainda fazem da violência tanto física como psicológica a sua melhor forma de persuasão.

Ele riu. Suspirou um Ahhh bem profundo, e disse - Você já aprendeu muito inclusive para quem acabou de sair de uma prisão. Mas se não se sente feliz, à 2 quarteirões daqui estão alguns daqueles homens que te tratavam com carinho. Garanto que se você se entregar eles serão benevolentes. - quase engasgando com suas próprias gargalhadas.
Foi quando a razão se norteu e me fez dizer:
- Com toda certeza que eu tenho, não.

Então levantando-se, ele bagunçou o meu cabelo, e insinuou - Você já mordeu o fruto, pequeno Adão.

E quando olhei pra lá ele não estava mais lá.
Então eu parei pra pensar, e notei que aquele homem na verdade não poderia passar tanto tempo preocupado só comigo. Ele tinha seus objetivos e desejos, seja lá quem for.
Eu tinha conversado com a minha consciência.


E ela realmente me fez notar o que eu demorei tanto pra perceber.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

Peccato, VII

Estavamos nós ali, perante aquelas cores e odores. Eu, ela, e a bicicleta. Mas de primeiro momento, interessei-me repentinamente por aquele caderno onde ela anotava as coisas tão compenetradamente. - Nele eu posso escrever sobre meus ideais pra que eu nunca caia na rotina, mesmo impedida de fazer o que quero - Disse ela, sobre o caderno.
E me falava com a boca cheia de vigor sobre seus ideais de liberdade e igualdade, sobre sua sociedade ideal e perfeita, sobre uma utopia que pairava sobre seus sonhos, sendo até utópica demais para os próprios sonhos. E aquilo transpassava meu coração como se eu tivesse cansado de ouvir sobre isso, e por mais cansado que talvez eu estivesse, menos sentido fazia já que foi a primeira pessoa que me falava sobre o assunto. Talvez após ver o jeito como as pessoas exercem sua presença na sociedade eu tenha perdido qualquer chance de desenvolver uma utopia no meu coração. E talvez mesmo cansando-me, sejam suas utopias que mais tenham me atraído.
Após muito conversarmos sobre tudo, ela decidiu perguntar meu nome. E eu me sentia na obrigação de respondê-la. Envergonhado, abaixei-meu rosto ruborizado - Não tenho, ou não me deram. - E ela, com o mais sereno de seus sorrisos - Ótimo, assim sendo me dá liberdade para escolher-le um.

Estavamos debaixo de uma macieira, e com toda sua naturalidade ela levantou e colheu uma, me dizendo:
- Teu rosto está vermelho, como está maçã, símbolo do pecado. Te chamarei de Peccato.


Peccato.
Esse nome ecoou na minha cabeça como se fosse uma engrenagem que faltava pra um grande relógio.

Ela sentou, e falou que só nos envergonhamos quando cometemos algo de errado, e que por isso ela teria escolhido esse nome. E de certa forma eu me sentia mal mesmo, não me sentia bem quando pensava que estava atraído por ela, ela era demais pra um cara que até à pouco não tinha vestes nem nome. E então, recolhendo seus pertences, e sentando em sua bicicleta ela disse - Peccato, estou indo embora. Qualquer dia, nos vemos por aí. Costumo vir sempre aqui. - e antes que partisse - Me deu um nome mas não me disse o seu!


- Meu nome é Sophie.

terça-feira, 28 de julho de 2009

A primeira sinfonia da floresta, VI.

Era um novo dia. Tinha eu, adormecido ao lado daquelas crianças. Me parecia um lugar tão, mas tão confortável, confortável para alma. Elas ainda foram muito boas para comigo, e compartilharam algumas vestes que lhe eram grandes. Já não me encontrava parcialmente nú.
Apesar daquilo tudo eu não poderia parar por ali. Então resolvi conhecer mais a cidade. Por ela toda haviam placas de produtos à venda, por três, seis, ou até doze vezes sem juros. Carros, perfumes, roupas, viagens, apartamentos, jóias. Afastando-me mais do centro da cidade, vi pessoas se agredirem, vi pessoas se venderem, as vi se desesperarem. Vi pessoas se acusarem como se todas fossem juízes e assassinos, ao mesmo tempo. O asfalto já não cobria mais a rua e as pessoas já não se intrigavam mais comigo. Me questionei se era por que agora eu estava com o corpo mais coberto, mas não me importei. Aquele lugar não me apavorava mas também não me atraia. Não era o que eu queria.
Encontrei uma estrada. Segui por ela, e quanto mais andava mais ela se estreitava e mais verde havia para me cercar. Quando percebi, estava subindo um monte. Aquele lugar parecia uma obra de arte que circulava você. O Sol, entrando pelo alto das árvores e antigindo cada flor, cada folha, iluminava tudo intensamente, como se a própria vegetação brilhasse. O vento, hora violento, hora sereno, criava uma ópera nos assobios dos vãos entre as copas e seus galhos. Harmonia que o ser humano perdeu o dom de reproduzir.
Subi, subi, e subi, e no final de tudo encontrei uma bicicleta. Avancei, na procura de um dono para a mesma. Encontrei, por fim, uma menina numa clareira.
Seu corpo era curvilíneo e sensual, e mais sensual ainda era discrição com qual ela se mantinha, sem exibí-lo vulgarmente. E para o contraste, seu rosto era delicado e sereno, com um ar de inocência indescritível. Mantinha-se compenetrada, em seu caderno, anotando num movimento doce de círculos e retas, num vai-e-vem com a sua mão e uma caneta. Observei, pasmado, eu estranhamente reconhecia o seu rosto. Após poucos minutos observando-a, ela notou minha presença. Mas não se assustou.
E falou com uma segurança que parecia abafar a minha própria:
- Deseja algo, garoto?
- N-Não, estou apenas conhecendo esses lados da cidade.
Então ela me observou bem, parecendo dissecar a minha própria alma, e disse - Você não parece ser perigoso. Então por quê permanecia observando? - fechou o caderno, e pousou-o no seu colo. Não tive coragem de responder. Era tudo harmonicamente bem feito, bem encaixado, e funcional, e eu não conseguia entrar em harmonia. E olhando ela permanecia, sem nenhum ar de desprezo ou de raiva. Isso, era o fator que causava medo.
- Vamos, eu não posso adivinhar o que se passa na tua cabeça. - e sorria serenamente.


Deixe-me levar. Respirei fundo e deixei os assobios do vento ecoarem dentro de mim. Tomei coragem, e finalmente respondi - Me espantei, com a presença de alguém aqui. Ainda mais quando vi uma senhorita como você. Ainda mais que presumi que não deveria ter ninguém por cantos como esse. - Ela riu, balançou a cabeça e olhou para mim. Convidou-me para fazê-la companhia. E eu aceitei.

sábado, 18 de julho de 2009

O pior dos monstros, V.

Eu passava pelas ruas e via as pessoas se espantarem com a minha presença. As crianças, inocentes, que se aproximavam, sempre eram reprimidas à chegar perto pelos seus pais castradores e preocupados em manter a reputação de suas crias. Os pequenos, olhavam como uma réplica, querendo dizer "Por quê, o que há de mal nele?". Sabia muito bem disso, afinal, eu também queria saber. Talvez minha aparência e etiqueta não correspondesse aos bons e velhos hábitos que um garoto da minha idade deveria seguir. Ou, ainda mais, talvez eu fosse disforme e não tivesse percebido até o momento. Mas era tão ruim ser discriminado e marginalizado assim.
Após muito andar sob o brilho das luzes de prédios e placas anunciando diversão enlatada e em série, eu encontrei uma ponte. Calma, sem muito tráfego, abaixo dela havia um canto escuro e aparentemente vazio, apavorante, mas apropriado. Desci com cuidado por um monte de terra, e encontrei um grupo de crianças também mal trajadas e sujas. Não me aproximei, decidi ficar no meu lugar e descansar por que a noite já chegara. Mas elas à fizeram, eram em torno de oito, e formaram uma roda ao meu redor. Curiosas, perguntavam de onde vim, para onde eu iria, por que estava ali. Não havia outra resposta senão "não sei".
Essas crianças eram tão puras e inocentes quanto as outras bem trajadas e castradas. Mas elas tiveram impostas sua liberdade e foram marginalizadas, como eu. Mas elas simplesmente não se importavam, aquilo tudo parecia não atingí-las. Era como se a inocência fosse um casulo que enquanto você não conhece as coisas do mundo você é protegido delas. Mas eu, já conhecia o desprezo, a raiva, o medo.


E parecia que a inocência já decidira não me proteger mais...

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Olhem para mim, IV

Estava acordando e minha visão ainda estava meio embaçada, sentei-me, esfreguei os olhos, e vi um homem parado na minha frente. Olhava com ar de terror. Como se eu tivesse tirado tudo dele.
Perguntei à ele então - Que lugar é esse, e que placas são essas? - ele então suspirou e falando como se fosse óbvio - Aqui é o lugar onde as pessoas repousam até degradarem, rapaz, e aquelas placas guardam os nomes dos infelizes que já descansam. - Desde então ele pareceu mais relaxado. Ele virou e seguiu em direção à um cásebre mal-feito, mastigando uns pedaços de erva e guardando eles num papel.
Era com certeza um pouco dramático olhar para eles. Parados ali, sem ter escolha do que fazer. O pior de estar ali, era perder a vontade. E eles, tinham-na perdido.
No meio daquilo tudo tinha uma árvore. Viçosa, parecia que ela era intacta ao resto do mundo e às suas explosões. Então, olhei bem ao redor dela, e vários frutos podres ao seu redor, e outros no auge do sabor pendurados nos seus galhos. Parecia que ninguém os saboreava, e eles simplesmente caiam no chão e apodreciam. Então eu subi nela, com muito esforço já que eu não tinha força nenhuma, e colhi alguns deles, e comi como quem nunca tinha feito uma refeição na vida, sentando na raiz da árvore. E as pessoas que visitavam aquele recinto me olhavam umas com cara de terror, outras de piedade, e umas que eram todas empiriquetadas me olhavam até com cara de desprezo. Ignorei, e terminei de comê-las. Afinal, as frutas que iam cair sem que ninguém saboreasse, iam ser essas pessoas mesmo. Iam perder o ânimo de viver, e ficar num pedaço de chão qualquer às margens da sociedade.

E pensar que até ali, eu só tinha conhecido as margens da sociedade.